Governo do Distrito Federal
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13/01/20 às 14h48 - Atualizado em 13/01/20 às 17h01

Morre, aos 89 anos, o professor Aníbal Coelho, liderança do Núcleo Rural Casa Grande

Aníbal Coelho, que que era líder rural no Gama – Foto: Associação Casa Grande/Divulgação

 

Morreu na tarde deste domingo (12) o professor Aníbal Rodrigues Coelho, fundador e líder comunitário do Núcleo Rural Casa Grande, no Gama. Ele tinha completado 89 anos no último dia 10. Aníbal morava no núcleo rural com a esposa, Dione da Conceição Rodrigues Coelho, desde 1979.

 

Nascido em Virginópolis, no interior de Minas Gerais, filho de produtores rurais, Aníbal precisou se ausentar de sua família já aos 9 anos de idade, quando foi enviado para estudar no seminário dos salesianos em São João Del Rei (MG), em regime de internato. Lá fez o ginásio e o concluiu o ensino clássico, equivalente hoje ao ensino médio.

 

Depois foi para Pindamonhangaba (SP) fazer o noviciado, período da formação de um religioso que precede a emissão de seus votos. Ao voltar, formou-se em filosofia, quando passou a dar aulas e trabalhar com crianças e adolescentes em situação de risco social. Desde então tornou-se professor, tendo lecionado em várias escolas.

 

Foi em 1963 que Aníbal mudou-se definitivamente para Brasília, a fim de lecionar no colégio salesiano e trabalhar na recém-fundada Universidade de Brasília. Naquele mesmo ano conheceu aquela que viria a ser sua mulher, uma goiana formada em direito que veio para a cidade em 1959, com a missão de ajudar a criar a Secretaria de Fazenda do Distrito Federal. Casou-se com ela em 1964. Dione Conceição Rodrigues Coelho foi a grande companheira e incentivadora de todo o movimento realizado no Casa Grande.

 

Já casado, Aníbal formou em Biblioteconomia na UnB, quando então ajudou a fundar e presidiu a Associação dos Bibliotecários do Distrito Federal durante 14 anos. Por meio da associação, empenhou-se em levar bibliotecas para as cidades periféricas do Distrito Federal. Em entrevista ao site do Núcleo Rural Casa Grande, ele contou: “Meu envolvimento com a associação e com o movimento comunitário me rendeu quatro prisões, porque isso, na época, era visto como atividade comunista”.

 

Aníbal Coelho recebe medalha por atuação como bibliotecário em 1987 – Foto: crb1medalha.wordpress.com

 

Na mesma entrevista Aníbal também relatou os motivos para tamanho empenho ao movimento comunitário do Núcleo Rural Casa Grande, que teve início na década de 80 e perdurou até seus últimos dias, investindo inclusive parte dos seus bens pessoais.

 

“A razão é que eu sou gente porque tive o apoio de certa comunidade que foi a de São João Del Rei, Minas Gerais. Sinto um dever de gratidão. Entre os salesianos, Dom Bosco incutia muito na gente a gratidão. Dizia que a gratidão é a flor mais bonita que há no coração das pessoas. A gratidão é a primeira razão da minha dedicação à Casa Grande”, afirmou o líder comunitário. “Mas existe uma segunda razão: eu e a Dione somos muito religiosos. O padre Dom Ávila me disse: ‘Aníbal, o que você sabe fazer é mexer com roça. Larga isso aqui e vai para a roça. O dia que você não conseguir assistir à missa, o seu trabalho é a sua missa. Tome conta do seu núcleo’. Recebi estas palavras como se fosse um mandato dos próprios apóstolos”, contou o religioso. “A terceira razão da minha dedicação a Casa Grande é a seguinte: eu tinha feito um concurso para a Câmara dos Deputados e, para tomar posse, tinha que fazer um exame médico. Nesse exame o médico descobriu uma coisa que eu já sabia: que eu era cardíaco e a minha situação era muito grave. Ele então me disse: ‘Aníbal, você não tem condições de tomar posse. Mas como você não tem mais de seis meses de vida, vou dar resultado positivo para que, ao morrer, você possa deixar melhores condições para sua família. Recomendo que você se mude para a área rural onde terá um final de vida mais saudável’. Então eu vim para Casa Grande para morrer em seis meses e estou aqui até hoje, esperando que este prazo não termine tão logo e fazendo este trabalho com todo o entusiasmo. Essas três razões me são suficientes para justificar este trabalho que realizo aqui há 25 anos.”

 

Com pesar, amigos e parentes velavam o corpo de Aníbal nesta segunda-feira (13), com o sentimento de que um grande líder se vai, mas seu trabalho permanece, como afirma Jacinto Lima, atual presidente da Associação Casa Grande, amigo e admirador de Aníbal.

 

“A morte do professor Aníbal não interrompe as ações dele, porque foram tão bem implantadas que basta dar continuidade; e temos pessoas prontas pra continuar. Vamos sentir falta da presença física dele, mas seu legado com certeza vai permanecer”, disse Lima.

 

O atual presidente da associação também destacou as conquistas do professor. “Ele veio em 1979 e passou a dedicar sua vida à construção social do Núcleo Rural Casa Grande. Abraçou, junto com sua esposa a comunidade e agregou em torno de si uma associação muito grande de pessoas. Hoje nossa comunidade é muito respeitada graças ao trabalho sério que ele realizou”, disse Lima.

 

Atendido pela Emater-DF desde a década de 80, o professor Aníbal atuou na área de agricultura, com plantio de milho, pimentão e outras hortaliças, e também com animais, com a criação de codornas para postura. “Na época eram oito criadores de codorna, que tinham cerca de 120 mil aves para postura. Foi a partir do projeto pioneiro no Casa Grande que a coturnicultura cresceu em todo o DF e até hoje ainda existe esse trabalho, com mais de 46 produtores”, detalha José Gonçalves, extensionista rural da Emater-DF.

 

“Ele é uma referência para todas as lideranças da área rural. Ele batalhou pela construção da sede da associação, pelo asfalto que hoje existe ali, pela construção da escola e do posto de saúde que existe naquele local, pela regularização das terras, proteção das nascentes e a última batalha até o último dia de vida dele foi pela creche e pela ampliação da escola no Casa Grande”, listou o gerente do escritório local da Emater-DF no Gama, Pedro Ivo Braga.

 

“Por 40 anos seu Aníbal foi um beneficiário atendido pela Emater-DF e isso nos orgulha muito. Ele deixa um legado de luta pelo desenvolvimento rural, uma pessoa que pensou muito mais nos outros e não nele, e que deixa um legado de luta pela ação comunitária rural e pela educação, principalmente”, afirma Braga.

 

Leonardo Mundim, da Terracap, assinou documento de legalização de posse do professor

 

No site da associação é possível acompanhar uma entrevista com Aníbal em que conta do apoio que recebeu da Emater-DF. “No começo todas as portas se fecharam. Menos uma, a Emater, que nos deu todo o apoio para que formássemos a associação dos moradores. A primeira reunião foi em 1981, aqui mesmo na minha chácara”, relatou Aníbal na entrevista.

 

“Hoje faço questão de ir lá e me despedir. Ele foi uma pessoa muito importante para o trabalho comunitário que a gente sempre prestou como empresa. Mesmo antes de ir trabalhar na Emater do Gama eu já ouvia falar do trabalho do professor Aníbal e foi uma alegria muito grande conhecê-lo e poder trabalhar e contribuir para aquela comunidade”, afirma José Gonçalves.

 

Aníbal Rodrigues Coelho deixa a esposa Dione Conceição Rodrigues Coelho e duas filhas adotivas, Marina e Sheila.

 

 

Com informações de casagrande.org.br

 

Serviço:

 

Velório na Capela nº 7 do Campo da Esperança a partir das 14h e sepultamento às 17h30.

 

 

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