Governo do Distrito Federal
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18/11/14 às 9h55 - Atualizado em 29/10/18 às 11h23

ARTIGO: A nutrição é uma questão pública

 

Em 1990, uma em cada cinco pessoas passava fome no mundo. Um assustador contingente de mais de 1 bilhão de seres humanos não tinham acesso a uma dieta regular, digna e suficiente. Hoje, são 805 milhões de desnutridos entre 7 bilhões de habitantes: 11% do total. Permanece inaceitável que um em cada oito seres humanos ainda passe fome em pleno século 21. Mas é inegável que avanços ocorreram: são 210 milhões de pessoas com fome a menos, o equivalente a um Brasil inteiro.

 

Mais que isso. A equação mudou sua natureza: a fome em nosso tempo resulta, sobretudo, das barreiras de acesso e não mais da escassez de alimentos. O conhecimento e a tecnologia disponíveis podem alimentar o dobro da população atual.

 

Isso torna ainda mais descabida a existência de um muro a separar quem come de quem é privado da nutrição. Essa transição acentua-se ainda mais com novos desequilíbrios: enquanto a fome diminui, a obesidade aumenta dramaticamente e hoje atinge meio bilhão de seres humanos.

 

O entrelaçamento entre fome e obesidade, frequentemente num mesmo país, e mais comumente em países em desenvolvimento e de renda média, como os latino-americanos, ilustra o gradiente de políticas e parcerias públicas e privadas que precisa ser mobilizado na construção da segurança alimentar e nutricional no século 21.

É justamente essa confluência de fatores que magnifica a importância da Segunda Conferência Internacional de Nutrição, que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) organizam entre 19 e 21 de novembro, na sede da FAO, em Roma, 22 anos depois do evento inaugural.

 

O custo socioeconômico da má nutrição aumenta a urgência da ação. A fome é responsável por metade de todas as mortes de crianças até cinco anos de idade. O saldo da obesidade não é menos assustador: está na origem de quase 3 milhões de mortes por ano, tendo atingido níveis epidêmicos no planeta, segundo a OMS. O conjunto gera perdas anuais que podem chegar a 5% do PIB global, até US$ 3,5 trilhões em produtividade e gastos com saúde.

 

Não existe bala de prata capaz de equacionar alvos tão dramáticos e de natureza tão distinta. Mas uma primeira e decisiva providência é tratar a comida e a nutrição como questão pública, um ingrediente estratégico do desenvolvimento das nações. Portanto, da cooperação internacional. É o que fará a conferência organizada pela FAO e pela OMS.

 

A educação alimentar como prioridade de Estado, de um lado, e o acesso a dieta saudável e equilibrada, desde a infância, por outro, formam o chão firme das respostas que nos desafiam.

 

O Brasil avulta como referência global nesse trajeto, depois de ter erradicado a fome e montado um gigantesco programa de educação alimentar. Diariamente, 43 milhões de crianças e adolescentes brasileiros têm acesso a um programa de alimentação escolar no qual o governo investe mais de R$ 3 bilhões por ano.

 

A relação entre o alimento, a escola e a responsabilidade pública agrega aqui outra particularidade crucial: desde 2009 é obrigatório, por lei, que um terço dessa demanda seja atendida pela produção da Agricultura local. Essa sinergia também estimula o desenvolvimento local e a oferta de alimentos tradicionais, restituindo um dos elos entre a luta contra a fome e os desequilíbrios nutricionais da vida moderna.

 

No Brasil, e em qualquer outro país, o fortalecimento da Agricultura familiar é um dos antídotos a uma dieta rica em calorias mas pobre em nutrientes que devasta a saúde na sociedade moderna. Ao promover o resgate da dieta local, incentiva-se o consumo de alimentos frescos e devolve-se pertinência à culinária popular.

 

Tampouco aqui, porém, estamos diante de uma bala de prata. A indústria de alimentos tem e continuará a desempenhar papel decisivo na nutrição moderna. O desafio de harmonizar o retorno das empresas e a promoção de uma dieta equilibrada está longe de ser contraditório. Cada vez mais, o interesse do consumidor encontra eco na lógica empresarial que detectou na demanda crescente por saúde e qualidade de vida a grande fronteira do investimento e da pesquisa na indústria da alimentação do século 21.

 

O que a ação brasileira sinaliza é a oportunidade das políticas públicas acelerarem o processo rumo à segurança alimentar e nutricional. Exatamente por isso encerra um potencial de induzir o investimento privado a assumir toda a extensão de sua responsabilidade no equilíbrio nutricional do nosso tempo.

 

José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO)

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